domingo, 11 de abril de 2010

estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
e não tivesse mais irmandade com as coisas
senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
a fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
de dentro da minha cabeça,
e uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
estou hoje dividido entre a lealdade que devo
à Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
e à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

.

sempre uma coisa defronte da outra,
sempre uma coisa tão inútil como a outra,
sempre o impossível tão estúpido como o real,
sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

.

a realidade plausível cai de repente em cima de mim.

.

tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
meu coração é um balde despejado.

.

à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

.:.

quando não sei como dizer,
deixo que os outros falem por mim.
e pra derramar o que não cabe passeio pela 'tabacaria' de álvaro de campos.

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