estar ali significava libertação. libertar-se de si, sobretudo. libertar-se da sua teimosia. a inutilidade de persistir era verificada a cada dia. e ela se dava conta disso a cada instante recortado e preto-e-branco.
o veludo vermelho a fazia lembrar de como as coisas se passavam intensamente por dentro. ela se sentiu viva e lembrou que a sua presença costumava ser estardalhante. o alívio veio, na veia de quem deixou o cansaço e a velhice do Eu de lado.
ela sorriu. e quase que instintivamente sentiu-se dona de si e do seu caminho. era bom estar ali. por um momento saiu do Eu e se incomodou com a demora. a demora sempre a incomodava, mesmo quando se tratava de assuntos de si mesma, de si própria, do Eu e do universo com novo significado. olhou para o lado: um casal de meia idade. as marcas no rosto da mulher lhe deram a impressão de que há muito tempo eles se afastaram dos sonhos iniciais, e não permitiram que outros sonhos chegassem. eles se escondiam um do outro. a relação que mantinham parecia algemá-los. um no outro e os dois na rotina.
de volta ao Eu e, portanto, fora de si, ela retomou o processo de libertação. pensou que isso fosse transcender. ela conseguiu nomear o que buscava e se sentiu menos presa por isso. ela queria brilhar ao lado de mais quatro estrelas. seriam, então, cinco. cinco estrelas brilhando. esse brilho representou o desejo imenso de sentir algo intenso. sentiu. ansiava por sentir-se livre. e se questionou quanto a intensidade o ser. entendeu que intenso mesmo era sentir e que a liberdade viria depois, quem sabe. suspirou. sentiu de forma intensa e foi livre, por não mais que três segundos.
forte, foi assim que ela se definiu. tão forte quanto um bruce lee, desses do maranhão. a sensação de ser livre era mais incômoda. ela escolheu a liberdade ao invés da força. e foi livre outra vez. se imaginou numa estrada. decidiu se danar naquela estrada, mundo a fora e ir embora. mas ela não saiu do lugar. era a estrada do Eu, os meandros de si.
entendeu que ser livre era processo. e estar ali era o veredicto para que o fosse. o Eu disse a ela que ambos eram sozinhos. o que era bom. era bom porque era recíproco. o Eu era sozinho dentro si e dentro dela. e ela não fazia companhia a si mesma. foi livre outra vez.
nomeou outra coisa que queria. ela ansiava por uma companhia. alguém para dividir músicas, nóias, amigos e mapas de tesouros encantados. olhou para o lado de novo. não queria acabar como aquele casal, algemado e rotineiro. percebeu que o queria mesmo era momentos de encontro e decidiu pensar sobre isso mais tarde.
as luzes se apagaram e ela se esqueceu de si e do Eu. se esqueceu também do que queria. se esqueceu da liberdade. começou o filme: “lisbela”. o prisioneiro ficou do lado de fora.
http://los-hermanos.letras.terra.com.br/letras/71186/
texto de 12.02.05
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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
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caso não se importe, quero te dar um livro
ResponderExcluirQuem é vc?
ResponderExcluirentão, paula! faltou muita informação na msg da oferenda, né? em 2008, a mãe de uma amiga lançou um livro chamado 'o encontro amoroso e outros encontros: reflexões sobre amor, liberdade e capitalismo'. o nome dela é graça reis, ela era esquizoanalista e por consequência dessa sua formação o texto é bastante permeado pela filosofia de deleuze e guatarri. é uma obra simples e muito especial, não apenas pela minha afetividade com a autora, mas principalmente pelas questões políticas levantadas por suas falas. no dia 22 de janeiro, ganhei outro exemplar. tô com uma pérola na mão e pela importância do livro e vontade de ajudar a divulgá-lo, não gostaria de passar pra alguém q o deixaria guardado na estante sem ser lido. no dia 23 li este seu post e me lembrei de algumas coisas do livro e sem pensar muito deixei a msg pra vc. sei lá, achei q tinha muito a ver e q talvez vc se interessasse pela leitura, sem falar na possibilidade de alguém fora do meu círculo de relações poder ter contato com ele. só q faltou me explicar mais, né? imagino já não ser necessário falar quem sou eu! se vc quiser, marcamos um dia pra eu te entregar o livro, tudo bem?
ResponderExcluiraté!