entrou em casa levemente bêbada.
deixou as chaves na estante que estava à direita da porta. foi direto pro banheiro, deixou a bolsa no chão, mijou.
abriu a porta do quarto, tirou os tênis um pouco encardidos, jogou-os indisciplinadamente em algum canto. fuçou no armário e pegou a camisola mais confortável que tinha. logo depois o cobertor.
começou a dispir-se. tirou o jeans surrado, depois a blusa com alguma estampa divertida.
olhou para o seu próprio corpo. pensou que por detrás do piercing, das curvas e da pelugem estavam suas entranhas - algo muito mais íntimo do que a cintura nua. sentiu-se aliviada por não ser capaz de as expor para ninguém.
tirou o top, parou por aí. estar completamente nua era uma sensação estranha.
pensou que nunca esteve completamente nua. queria despir-se de sua própria pele.
de repente sentiu que não conhecia a si mesma. a maior parte do seu corpo, tudo aquilo de íntimo e particular, estava nas entranhas. lugar inacessível para ela mesma.
ela precisava se livrar da epiderme. queria apertar os rins, o intestino, o pâncreas e o fígado entre os dedos, com toda força que tinha.
olhou para os braços, achou graça dos pêlos meio loiros.
olhou para a cintura mal vestida, um pouco de sensualidade residia ali.
voltou a pensar nas entranhas.
pensou nas palavras trocadas, nas palavras não-ditas, na distância que sempre se impunha,
nas expectativas não-logradas, nos gestos mal-pensados, no carinho leviano. a certeza de que estava sozinha, que por muitas vezes se apresentou como alívio, dessa vez apareceu como um nó na garganta.
riu de si mesma e se lembrou de que despir-se daquilo que era não podia ser indolor.
reinventar-se doia. o crescimento do Eu era como uma lança, que lhe cortava a coluna.
abriu o zíper. deixou a pele no chão, como fez com o jeans há minutos atrás.
se surpreendeu quando viu que por baixo da derme não encontrou as entranhas.
olhou para o corpo semi-nu. abriu e fechou os olhos.
fazer-se era tarefa para o tempo todo, para todo o tempo. fazer-se era revolução permanente.
e revolução permanente era politização da vida.
entendeu que o ferro que lhe feria o peito poderia ser um instrumento para se descobrir.
rasgou o tórax, despiu-se de novo.
agora sim estava nua.
terça-feira, 9 de março de 2010
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Olá...faz tempo que sigo seu blog de longe...mas ultimamente tenho tido vontade de te escrever, pois suas postagens tem mexido um pouco comigo. Resolvi me tronar seguidor do blog para poder entrar em contato com vc...escrevo algumas coisas e podemos trocar alguns textos...te mando o trecho de um que gosto muito: "A solidão não tem parentes, nem portas, ou vozes ou corpos...é dura como estanho derretido impregnando a gente...dura! como pedra ou amor precoce"
ResponderExcluirMe escreva se quiser talvez a gente esteja vivendo um momento parecido...
Abraços