quarta-feira, 14 de abril de 2010

chegou em casa cansada e com o tornozelo esquerdo doendo um pouco.
pendurou as chaves, indisciplinadamente deixou a mochila no chão.
no escuro, abriu a geladeira. pegou a última cerveja, continuaria o ritual.
tomou um gole e desejou o maço de cigarro que não comprou no caminho de casa. a cerveja desceria à seco, paciência.

a cabeça derramava idéias resignadas.
sentia as maiores saudades dos amigos que estavam longe. como amava todos eles! como os queria por perto!..

nesse preciso momento se sentia só.

sobre as voltas e os tropeços dos últimos tempos finalmente entendera e, agora, entendera até o final:
seria assim, precisamente assim, como todos esses limites.

o óbvio, o imediatamente deduzível, lhe pareceu a maior das novidades.
e como doeu se dar conta disso. seria sempre assim, precisamente assim.
mas no fundo ela sabia. só não admitia por ele[s], não por ela mesma - era mais fácil.

os últimos goles seriam úmidos, nas mãos e nos olhos.
a umidez escorria no rosto, estava chorando.
seria a derradeira despedida? ou admitir era realmente dolorido?
(nesse caso, mais dolorido que o tornozelo esquerdo.)

isso ela não saberia dizer.
mas o óbvio teimava em lhe saltar aos olhos: era mesmo limitado.
e ela, à revelia, precisava definir um lugar pra desejar. sentia saudades de casa, não sabia mais o que chamar de lar.

queria estar longe de confusão.
sabia que isso significaria estar longe também do cachecol vermelho que lhe aquecera os olhos.
fechou com força esses mesmos olhos castanhos e sentiu que talvez fosse mesmo uma despedida. e como isso doia!..
talvez fosse melhor assumir: 'o que nos cabe é a saudade!' (como doia!).
caminharia em frente pra sentir saudade.

respirou fundo e cantou em voz alta, desejando tanto que [ele] pudesse ouvir:
'i can forget about myself trying to be everybody else
i feel allright that we can go away
and please my day
i let you stay with me if you surrender'

agora sim iria dormir.
e essa noite, sabia, não sonharia mais.


.

[i'll take a ride in melodies and bees and birds ...
will hear my words?]

Um comentário: