cotovelos apoiados na mesa, as mãos sustentavam a testa e os dedos se perdiam na franja de seus cabelos claros, curtos e meio oleosos.
suspirou um suspiro sonoro, levantou-se bastante assustada.
deveria arrumar tudo aquilo muito rapidamente.
não poderia deixar fazer efeito.
displicentemente abrira uma de suas caixas de pandora, de onde saíra alguma substância perigosa que a deixava graciosamente boba. e essa substância, que tinha também a propriedade de desarrumar absolutamente tudo, agiu feito vento teimoso que quando a gente deixa a janela aberta joga tudo pro ar.
sabia que tinha pouco tempo. conscientemente deveria colocar as coisas no lugar imediatamente, tirando da vista tudo aquilo que lhe fizesse lembrar de seu estado graciosamente bobo de minutos atrás.
de maneira apressada reorganizou tudo e respirou aliviada.
se despiu também às pressas e, como quem fugia, correu para o banheiro. nem se deu conta de quando abriu o chuveiro e a água quentíssima começou a cair na nuca nua e nos ombros.
era o jeito mais fácil de chorar, não conseguia identificar o que era água e o que era lágrima.
assim, nunca sabia quanto estava chorando de fato e era como se não estivesse. aí tudo ficava mais calmo e chorar parecia mais natural.
saiu do banho, se trocou e secando os cabelos com a toalha revisou mentalmente o que tinha para fazer: "responder emails, estudar, dar um gás no trabalho ... ah! tem o filme da mostra de cinema latino-americano mais tarde ...".
entrou no quarto e se surpreendeu com a ordem que imperava ali:
"estranho, parecia tudo tão bagunçado quando eu saí ...".
engoliu seco quando viu a caixa que ainda estava em cima da mesa, reviveu toda a epifania de instantes atrás em questão de segundos.
entendeu que seu método clássico de lidar com o que não cabia em si não funcionaria mais.
resolveu que não guardaria a caixa, tirou tudo o que estava na cômoda do lado direito e a deixou ali, à vista.
respirou tranqüila, apesar dos olhos marejados e do nó na garganta.
"eu vou aprender a lidar com você, sra. caixa".
aí todo mundo entendeu - ela, o quarto, a caixa, a lágrima, a cômoda - que realmente iria aprender.
é que por amor a gente faz muita coisa, inclusive aprende lidar com caixas.
não era amor à caixa, era amor à substância perigosa que lhe deixava num estado graciosamente bobo.
"cedo ou tarde essa substância haverá de retomar sua forma de gente", pensou resignada.
caminhou até a cozinha e ferveu um pouco d´água para tomar um chá.
sábado, 17 de julho de 2010
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"abriu o chuveiro e a água quentíssima começou a cair na nuca nua e nos ombros. era o jeito mais fácil de chorar" - lindo
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